D. A. de Biblioteconomia UFPE

Censura a livros chega ao Paraná

A onda de caça a obras literárias disponíveis em bibliotecas escolares chegou ao Paraná. O vereador Jair Brugnago (PSDB), de União da Vitória, na Região Sul do estado, retirou das prateleiras da biblioteca da Escola Estadual São Cristóvão, onde é diretor, duas obras literárias indicadas para alunos de ensino médio. Após considerar o conteúdo dos livros inadequado, Brugnago entrou com ação no Ministério Público do município para pedir que todos os exemplares de Amor à Brasileira – que reúne vários contos, dentre eles um de Dalton Trevisan – e Um Contrato com Deus – e Outras Histórias de Cortiço, do escritor americano Will Eisner, sejam retiradas de todas as escolas da cidade. A retirada dos livros é criticada por especialistas (ver matéria nesta página).

As obras são enviadas pelo Ministério da Educação, por meio do Programa Nacional das Bibliotecas Escolares (PNBE), às escolas públicas de todo país. Elas fazem parte de uma lista selecionada e analisada por uma comissão de professores universitários da área selecionados pelo MEC. Os livros só chegam às bibliotecas das escolas depois de aprovados. A ação do vereador ocorreu após casos semelhantes em São Paulo e Santa Catarina. Em São Paulo, o conteúdo de Um Contrato com Deus já havia sido questionado por alguns educadores (leia box) por conter cenas de violência, sexo, estupro e pedofilia. Escrita em 1978, a obra recria memórias da infância do autor, vivida em um cortiço do Bronx, em Nova Iorque, nos anos 30. Eisner é considerado um dos artistas mais importantes de histórias em quadrinhos e da cultura popular do século 20.

Para a doutora especialista em leitura Marta Morais da Costa, professora da pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a literatura tem uma característica de descompromisso com a escola. “Há uma incompatibilidade entre a proposta da literatura e de uma escola sistematizada e normativa. A escola foi convertida num espaço e recebeu a função de passar cultura escrita para as crianças, coisa que famílias e outras instituições sociais não fazem”, diz. A professora ressalta que toda situação de censura leva a extremos. “Começa devagarinho e logo vamos ter uma pseudo literatura pasteurizada nas escolas”, ressalta.

Fonte: Gazeta do Povo

17 de Junho de 2009 - Posted by | Não classificado |

4 comentários »

  1. É melhor tratar esses temas na escola, mostrando aos adolescentes que isso acontece realmente e ensinando como se prevenir do que esperam que eles sejam pegos de surpresa, na rua ou na internet, por exemplo.

    Quem já leu o livro percebe que não se trata de “pornografia” principlamente porque o autor tem o cuidado de não mostrar as “cenas mias picantes”, ele as sugere, com bastante perspicácia.

    É realmente lamentável que essa decisão tenha sido tomada e que esses livros tenham sido tirado das bibliotecas. O problema está é na falta de acompanhamento dos professores e bibliotecários. Todos sabemos que nem todos os assuntos devem ser abordados. Há faixas etárias e faixas etárias. Esse livro não deveria cair na mão de crianças, que podem interpretar mal ou nem entender o que significa, mas sim na mão de adolescentes. Mas a falta de gestão das bibliotecas não consegue impedir que isso aconteça. Se bobear, pode ter acontecido pior: aposto que ninguém da escola sequer chegou a olhar os livros do PNBE (e aí incluo todos) só se importaram com isso quando a confusão estava armada. Aí fica difícil mesmo oferecer uma educação de qualidade.

    Comentar por Juliana | 6 de Agosto de 2009 | Responder

  2. Will Eisner para todos
    Cineasta Jorge Furtado contesta a origem das polêmicas sobre “inadequação” de obras literárias para estudantes

    Chegou ao Sul a polêmica dos livros ditos “pornográficos” adquiridos pelo Programa Nacional de Bibliotecas nas Escolas (PNBE), do governo federal. Boa matéria de Marcelo Gonzatto em Zero Hora (sexta-feira, 19/6/09, pág. 50) informa que “esta semana, quando chegou uma nova remessa ao Estado, uma escola de Alvorada relatou à SEC que considerava as obras de (Will) Eisner impróprias”. A Secretaria Estadual da Educação, segundo a matéria de ZH, mandou “remover das estantes três livros do autor norte-americano Will Eisner por serem ‘inadequados’ para adolescentes”.

    É uma pena. As obras em questão são três novelas gráficas, em quadrinhos, escritas e desenhadas por Will Eisner. Não li O Jogador, mas afirmo que Um Contrato com Deus (Editora Brasiliense, 1988) e O Nome do Jogo (Editora Devir, 2003) são obras-primas de um grande artista, e seria um grande serviço da escola pública gaúcha disponibilizá-las aos seus alunos.

    A matéria de Zero Hora tem como título uma pergunta: “Pedofilia, estupro e adultério são temas para estudante?”. Minha resposta é sim, é claro que são. É óbvio que cada livro deve ser adequado a idade do aluno, ninguém pensaria em sugerir a leitura de Sade ou Pierre Louys a crianças, mas afirmo que os livros de Will Eisner são totalmente adequados a adolescentes. Mais que adequados, necessários. A ideia de que um assunto deva ser sonegado aos estudantes contraria qualquer noção pedagógica, além do bom senso. “Saber sempre é bom”. Familiarizados com temas como a pedofilia, o estupro ou o incesto, jovens brasileiros talvez possam se sentir mais aptos a evitá-los ou mais encorajados a denunciá-los. É para isso, para aprender sobre nós mesmos, que existe a literatura e a arte, divulgá-las é função da escola.

    A polêmica do livros “pornográficos” anda rebaixada, como quase todo o debate público, pelo astigmatismo ideológico que “politiza”, na pior acepção da palavra, qualquer conversa. Em São Paulo foram os petistas que caíram de pau no governo Serra por distribuir livros “pornográficos”. Will Eisner, Manoel de Barros e outros depravados foram citados por gente furiosa, que pedia que o governo estadual paulista gastasse dinheiro com “literatura de verdade”. Aqui a crítica parece que mira o governo federal e o MEC, que comprou os livros. Quase todos os críticos falam das obras “em tese”, informam “não ter lido” mas… José Serra, sem ler, afirmou que as obras eram “de baixa qualidade”, e o governo gaúcho “não descarta recorrer a uma medida judicial para impedir a distribuição” dos livros.

    Sugiro aos interessados que, para começar, leiam os livros. Garanto que são de altíssima qualidade e, ao contrário do que afirma a secretária Mariza Abreu, a obra de Will Eisner não “estimula a erotização, o comportamento agressivo” e muito menos “uma percepção inadequada das relações afetivo-sexuais”, ao contrário. A obra de Eisner, assim como a Bíblia, Shakespeare, Machado de Assis, Cervantes, ou a obra de qualquer grande autor, utiliza os temas fundamentais que animam o espírito humano, incluindo aí crimes e pecados. Tratar temas como agressão, adultério ou pedofilia não significa “incentivar” a agressão, o adultério, ou a pedofilia. Significa conhecê-los. Não é esta a função da escola?

    * Cineasta, dirigiu, entre outros, “O Homem que Copiava” e “Saneamento Básico, o Filme”

    JORGE FURTADO *

    Comentar por carlos pinto | 23 de Junho de 2009 | Responder

  3. Uma Censura Equivocada
    Causou-me estranheza e ao mesmo tempo revolta, o fato de ler estampado em Zero Hora notícia sobre atitude da Secretária de Educação do Rio Grande do Sul contra as publicações alcançadas pelo MEC às bibliotecas de escolas públicas brasileiras, entre elas as bibliotecas gaúchas. Tratava-se de uma “recomendação para retirada das prateleiras” dos livros Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço, O Nome do Jogo e O Sonhador, todas de autoria de Will Eisner.
    São contos em quadrinhos e, talvez, a interpretação, dada pela Secretária, de que o material seria inadequado para os adolescentes para ser usado como material nas escolas porque estimularia a erotização, o comportamento agressivo e uma percepção inadequada das relações afetivo-sexuais entre adolescentes se deva justamente à força expressiva e realista que Eisner empregou em sua obra, o que já lhe rende alguns pontos. Tratou-se, portanto, de uma “leitura” simplista da obra e demonstra que sequer se observou o contexto das ações, seus personagens, a temporalidade e o texto enxuto, que traz um lirismo objetivo e racional, próximos ao realismo Machadiano ou naturalista de Aluísio de Azevedo.
    É sob esse aspecto, que a censura às obras deve ser contestado. Não apenas pela negação ao acesso a uma obra artístico-literária, mas pelo que representa em termos de possibilidades de debate e enriquecimento do ambiente pedagógico a comparação, por exemplo, entre os contos presentes em O contrato com Deus e os capítulos de O Cortiço. Seres humanos bestificados e que transformam seus desejos primitivos na força motriz de suas ações de sobrevivência numa sociedade em formação pode ser a síntese de ambos.
    No conto que dá nome ao livro, o que é a ganância imobiliária executada pelo imigrante judeu Frimme Hersch e sua amante, no Bronx em plena recessão americana, senão a mesma ensandecida busca de riqueza e status do português João Romão e Bertoleza nas lamacentas ruas cariocas do final do século XIX? Em O Zelador, há sim pedofilia. Porém com mais singeleza e sutileza que a encontrada em Lolita, de Vladimir Nabokov e que passeia livremente pelas prateleiras de qualquer biblioteca escolar. Eisner, no entanto, mostra a crueldade e poder de sedução de Rosie, que convence Scuggs a pagar para vê-la seminua e em seguida envenena seu cão e rouba-lhe o dinheiro. Ao perseguir a menina, o zelador acaba encurralado e finalmente livra os moradores de sua presença, tomando a mesma atitude de Bertoleza, ao se descobrir escrava novamente.
    Apenas a exploração destes livros nas aulas de Literatura e entre alunos do Ensino Médio já promoveria uma série de elementos para debate e produção de textos. Pois o vigor criativo dos autores transita entre o grafismo e as letras, tendo como mesma ferramenta o lápis. E isto, para os adolescentes, seria como optar entre ler o manual ou jogar um game. Ou seja, ambos se complementam e a opção entre um e outro vem de uma escolha pessoal. Justamente o que acontece em O Sonhador, outra obra censurada, cujo personagem central muitos adolescentes se identificariam. Ali, um jovem desenhista enfrenta muitas dificuldades em busca de espaço para seu trabalho, às vésperas da Segunda Guerra Mundial.
    A censura às obras é um equivoco e a reparação pode estar no desafio de incluí-las nos projetos pedagógicos das aulas de Literatura, pois o lirismo e arte de Will Eisner não podem ser desperdiçados.
    Carlos Pinto
    Rua Prof. Leopoldo TIetbohl, 468. Porto Alegre – RS Fone 51 33445404 – 51 84992922
    Professor de Literatura, Língua Portuguesa e Inglês – Especialista em Direitos Humanos.
    RG 3034747786

    Comentar por carlos pinto | 23 de Junho de 2009 | Responder

  4. Parabenizo ao vereador por sua atitude…

    So quem ja leu este livro tem nocao, de que baixaria se trata.

    E que pronografia nao deve ser divulgada na escola.

    Abracos

    Comentar por Roberta | 18 de Junho de 2009 | Responder


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