D. A. de Biblioteconomia UFPE

Polêmica e biblioteconomia espelham obra de Edson Nery da Fonseca

Um pernambucano biblioteconomista, que quase foi militar, monge, e que hoje é considerado um dos maiores especialistas do Brasil na obra do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), o autor de “Casa Grande & Senzala”, um dos livros mais importantes da historiografia brasileira. Edson Nery da Fonseca, 88, é tudo isso e um pouco mais.

Ele é formado em Biblioteconomia e apaixonado pela profissão. Uma crônica do escritor Mário de Andrade e um artigo do poeta Carlos Drummond de Andrade o influenciaram a perseguir a carreira e a demonstrar que, contrariamente a todas as piadas ignorantes, um biblioteconomista não é um organizador de estantes. Os dois modernistas descreviam a profissão como um ato de amor, e é assim que ela sempre foi encarada pelo pernambucano.

Hoje, ele é descrito como o mais polêmico autor da biblioteconomia nacional, capaz de criticar com precisão e pertinência até mesmo a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Mas ele fala com propriedade. É graças ao seu trabalho e à sua insistência que Recife ganhou, em 1950, seu primeiro curso de biblioteconomia. Chamado para organizar as bibliotecas da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), ele convenceu o reitor de que seu trabalho só seria válido se pudesse ser perpetuado depois que ele fosse embora. Uma vez conseguida a autorização, faltava apenas a verba –que continuou em falta. O pernambucano não desistiu.

Ciente dos hábitos de sua terra, escolhia os candidatos a professor e lá se ia, para a casa de cada um, na hora da ceia. Era inescapável. Montou o curso com professores dispostos a ensinar gratuitamente. Foi também um dos fundadores e o primeiro presidente da Comissão de Documentação da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e fundador da Biblioteca Nacional Central da UnB (Universidade de Brasília), na qual é professor emérito desde 1955. Não fez pouco pelos livros e, ativo até hoje, ainda escreve e fala com paixão aos jovens que compartilham o seu prazer por esse objeto.

Ele vive numa casa em Olinda, cidade próxima à Recife, com muitos gatos e 12 mil volumes de livros. É em torno deles que gira a residência e a vida do morador. Dois de seus conterrâneos mais ilustres, Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, foram amigos de Fonseca. O biblioteconomista escreveu livros sobre ambos, além de organizar edições com suas obras; mas especializou-se mesmo no estudo da vida e obra de Freyre, escrevendo biografia e ensaios que são considerados fundamentais em qualquer bibliografia sobre o sociólogo pernambucano.

“Eu não tenho sequer pós-graduação, não tenho mestrado, doutorado, tenho apenas um bacharelado em uma ciência que ninguém leva a sério chamada biblioteconomia. De modo que o que eu tive foi uma grande paixão intelectual por Gilberto Freyre, foi um encantamento pelas originalidades das ideias dele”, disse em uma entrevista ao programa da Rádio Universitária em Recife, “Café Colombo”.

O homem alto (Tio Gigante, como o chamava o filho de Freyre, Fernando) e de voz grave dedicou sua vida a sistematizar e pensar a produção cultural brasileira, incentivando outros a seguir seu caminho. Escreveu o livro que é considerado hoje a obra mais importante nos estudos de biblioteconomia, e que merece ser lido por qualquer amante de livros: “Introdução à Biblioteconomia” (Briquet de Lemos, 2007). Um de seus textos mais emocionantes está no livro “Ser ou Não Ser Bibliotecário e Outros Manifestos Contra a Rotina” (ABDF, 1988).

Convidado a ser paraninfo de uma turma de conclusão da Escola de Biblioteconomia de Minas Gerais, ele fez de seu discurso uma incitação política à crítica e à insatisfação. Sob o título de “Panorama Crítico da Biblioteconomia Brasileira”, o discurso não coloca panos quentes em nenhuma ferida e aponta de forma seca e direta os problemas mais graves das bibliotecas de um país que acha que não tem problemas.

É bela a paixão transmitida nessa crítica, que representa também a ferida do próprio Edson Nery da Fonseca ao ver o descaso que pode representar a destruição de uma cultura pela qual ele tem tanto apreço. “A Biblioteconomia brasileira vai bem? Vai muito bem, dirão os bovaristas e os basbaques. Só que a Biblioteca Nacional –isto é, a mais importante biblioteca de uma nação e, no caso da nossa, graças às coleções trazidas por D. João 6º, a mais rica da América Latina– está instalada num edifício quase em ruínas, que não comporta mais o seu acervo: fora disso tudo vai bem, porque o Governo construirá outra Biblioteca Nacional em Brasília. (…) Que tal o Plano Piloto? Ah, uma beleza, tudo vai bem. O genial Lúcio Costa tudo previu. Há supermercados, hospitais, igrejas, colégios, quartéis. Há até um ambiente de meia-luz, nas superquadras, para favorecer os namoros. Nem as bancas de revista e jornal foram esquecidas. Mas o genial Lúcio Costa confessou-me que esqueceu por completo as bibliotecas.”

Mas não fica nisso, pois o biblioteconomista não hesita em apontar as falhas tremendas da própria formação dos bibliotecários que trabalhavam naqueles ambientes tidos como templos de estudo. “Telefonei para a biblioteca do D.A.S.P. (Departamento Administrativo do Serviço Público), em Brasília, e perguntei se havia alguma edição de “Política”, de Aristóteles. “Só o senhor dizendo o sobrenome do autor, respondeu a bibliotecária, ‘porque no nosso catálogo os autores aparecem pelos sobrenomes’.” É triste, inegavelmente. Mas nada disso impediu Fonseca de se manter ativo na defesa de sua profissão e da construção cultural brasileira.

Ele escolheu dois templos para a sua vida: as bibliotecas e os mosteiros. Pouco afeito ao isolamento monástico, acabou ficando apenas entre as estantes. Ex-oblato do Mosteiro de São Bento de Olinda, falou em um livro sobre a vida nos monastérios. “Sub Specie Aeternitatis” (Arx, 2003), título que veio do livro “Ética” de Bento de Espinosa (1632-1677) e que significa “Sob Um Aspecto da Eternidade”, fala sobre claustros do Brasil e sobre a vida que neles se leva. Um oblato é o monge que vive a vida mundana, que permanece fora dos mosteiros. E o livro traz as lembranças de Fonseca sobre seu período entre os monges, salpicadas de histórias, explicações e referências acerca do papel dos monastérios na construção e preservação do conhecimento desde a Idade Média.

Uma obra de um erudito, sem dúvida. Mas é também uma obra de alguém que tem carinho pelo seu passado e respeito por aqueles que o construíram. Uma obra de um pernambucano que, apaixonado por seu país, traçou seu mapa: “Estou limitado ao Norte pela literatura / Ao Sul pela saudade da vida militar / A Leste por Gilberto Freyre / E a Oeste pelo Mosteiro de São Bento.” (in ‘Interpretação de Edson Nery da Fonseca’, Bagaço, 2001). Um homem que construiu, palavra a palavra, seu amor pelos livros e a luta por sua permanência no futuro.

Fonte: Folha online
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30 de Junho de 2009 - Posted by | Não classificado

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